segunda-feira

EPÍLOGO

Numa tarde, Clarisse saiu de casa, a rua estava pouco movimentada, apenas alguns transeuntes, mas isso não era importante porque na frente de sua casa havia um carro estacionado, era um chevet azul brilhante, ou pelo menos deveria ser; o brilho já se acabara a algum tempo e havia alguns arranhões aqui, amassados ali... Os bancos do carro que já tinha sido tão fofos e cheirosos retinham o cheiro doce e repugnante dos diversos perfumes, das diversas mulheres que já andaram nele, misturado a suor e água da chuva que entrava pela janela do carro, pois o vidro não fechava totalmente, ele emperrava bem próximo ao fim, mas era espaço suficiente para permitir a entrada da água. Apesar de tudo isso Clarisse mantinha um ardor ao olhar o automóvel, porque o que ela via não era o carro se desfazendo depois de tanto tempo,a única coisa que ela enxergava era o homem ao volante; o homem magro, com a barba por fazer, os cabelos grisalhos e os olhos cansados, mas ainda assim não existia outro homem no mundo que ela quisesse ver mais que aquele, não havia homem mais importante, ou que ela amasse mais que...

Ali era seu pai, aquele por quem tinha um imenso sentimento, se era mágoa ou amor, ela não sabia bem, apenas que ele continuava ali, em algum canto de seu ser, martelando incessantemente todos os dias como a lhe lembrar da existência que ela jamais achou possível esquecer.

Clarisse que havia parado na porta de casa, voltou a caminhar e depois de uns poucos passos alcançou o carro. uma cortina moveu-se na sala da qual a menina acabara de partir, voou apenas para uma lado como se estivesse sendo puxada, contudo não dava para ver ninguém por trás.

Antes de entrar no carro Clarisse pode perceber que estava sendo observada e olhou para trás com a mão na maçaneta do carro e mesmo sem perceber ninguém, acenou com um largo sorriso a estampar-lhe o rosto. Seu pequeno coração então deu uma fisgada que ela já bem conhecia e tinha a certeza que lá do outro lado da janela a mesma coisa era sentido por quem lhe observava. Nunca gostou de lhe deixar sozinha, mas também sabia que ela jamais lhe privaria daqueles pequenos momentos que acalmavam a alma daquela garota pálida e frágil que acenava e observava carinhosamente o recinto que acabara de deixar.

-Entre logo! - falou o homem no banco do motorista.
como se saísse de um transe, Clarisse voltou-se para o carro e sem mais se deter adentrou o carro e por mais nenhum segundo olhou pra trás o que lhe fez sentir como se lhe apertassem seu pequeno coração, pois era isso que a mãe sempre lhe dizia, que ela tinha um pequeno coração, tão pequeno quanto todo o seu corpo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário