sexta-feira

A MATADORA DE SAPOS

Era uma vez...

Num bosque chamado "Sempre, sempre feliz", pois todos no bosque era sempre, sempre felizes, mesmo nos momentos mais tristes eles estavam sorrindo. O bosque assim era conhecido porque todas as famílias, principalmente as mulheres se sentiam abençoadas afinal todas possuíam seu próprio príncipe, com quem tinham uma vida modesta e apesar das necessidades, o suficiente para lhes manterem sempre de bom humor. Seus príncipes na verdade, como rezava o costume da cidade, eram sapos que depois de um beijo de um amor verdadeiro se tornavam homens, afinal isso aconteceu há muito tempo, porém essa é uma outra história.
Certo dia algo aconteceu e a o bosque já não foi mais tão feliz.
Um dia enquanto todos dormiam o alojamento que abrigava todos os sapos-homens do bosque foi invadido e durante a noite, de forma silenciosa, alguns sapos sumiram sem deixar rastros. Pela manhã quando as mulheres chegaram para cuidar do lugar perceberam que havia algo de errado e quando olharam minunciosamente viram que faltavam cinco sapos e próximo dali seus corpos foram encontrados esbranquiçados. Então muitas começaram a chorar.
_Oh! Não! Meu pequeno Jerod ele se foi.
_Oh! Não, meu Cloud também.
E assim as cincos prometidas que ficaram sem príncipe se debulharam em lágrimas.
A partir de então, todo dia sumiam sapos, até que todos no vilarejo foram reunidos na praça central em plena tarde.
_Meu povo - falou o prefeito do pequeno bosque- devemos tomar algumas providências se não logo todas as mulheres ficarão solteiras e assim acabaremos por desaparecer.
E o povo urrou em concordância. Uma voz então se escutou no meio da multidão.
_Sempre existirão os homens dos outros bosque das redondezas - e o silêncio reinou depois dessa alusão, que era possível escutar o tremor dos pequenos sapos em seu alojamento bem próximo dali.
O prefeito com aquele seu jeito de olhar por cima dos óculos, procurou aquele que havia feito tal menção. encontrou uma das meninas que perdera o sapo a quem tinha o coração prometido.
_É verdade minha cara, no entanto, lembre-se sempre que aqueles também são nossos filhos, nosso sangue.
A menina baixou os olhos e seu rosto ficou vermelho e afogueado de vergonha e nada mais pronunciou.
_Então - voltou a discursar o prefeito - a partir de hoje quatro homens ficarão na porta do alojamento dos sapos para garantir que nada os aconteça.
E todos urraram em concordância.
E todas as noites, a partir do por do sol quatro dos homens do lugar ficavam protegendo o alojamento. Ainda assim os sapos continuaram a desaparecer. Perplexos e triste ao perceber que a medida não surtiu efeito o prefeito colocou o bosque em alerta e todos começaram a caça ao matador de sapos.
Passaram-se meses e todo dia um sapo desaparecia e todos já estavam esgotados e tristes e o bosque então voltou a se chamar "Sempre, sempre triste" como outrora havia sido nomeado.
Gabriela era uma das moradoras do bosque, era uma garota de 15 anos que gostava de conversar com todos no bosque e todos gostavam muito dela, afinal era uma menina muito solidária e prestativa sempre ajudando todos. Ela era uma menina de pele amorenada, quase como cor de canela, ela tinha o melhor sorriso do mundo e nesses tempos nebulosos quem o via se sentia muito feliz.
Um dia ela andando pelo bosque, embrenhado no meio da mata se deparou com os moradores do bosque que ao a avistarem foram em seu encontro ela no entanto tentou lhes evitar andando por outro caminho, no entanto eles conseguiram alcança-la e qual não foi o susto que levaram ao perceberem que nas pequenas mãos da menina que estavam sujas se encontrava um sapo morto. Ela então começou a chorar e eles a levaram para o bosque para ser julgada por toda o vilarejo.
_Meu povo - anunciou o prefeito em meio a balbúrdia que se fazia - encontramos, encontramos o matador de sapos!
E todos vibraram em uníssono.
_Ou seria melhor dizer a matadora de sapos? - nesse instante todos se olharem entre choque e susto, pois nunca haviam esperado que fosse uma mulher.
Então o prefeito Boa Gente mandou trazer a ré.
Gabriela com seu corpo pequeno, mas já jeitoso, como a ganhar corpo de mulher, caminhou quase que cambaleando em direção ao centro da roda que o vilarejo fazia. E todos assim em torno dela ficaram fitando-a assombrados.
_Por que? - era o que gritavam as meninas prometidas que perderam seus príncipes.
_ Matadora de sapos - gritavam outros aos urros.
Enfim o prefeito Boa Gente conseguiu que todos se calassem.
_Acalmem-se devemos ouvir o motivo dela, saber porque ela fez isso conosco. Então sua matadora de sapos, por que traiu seu povo?
E foi em meio a lágrimas que ela falou quase a sussurrar:
_Eu os salvei!
O povo urrou de ódio ao ouvir tais palavras.
_Sua matadora de sapos mentirosa você os matou!
_Você matou a todos nós.
_Você deve morrer também - e desta forma todos começaram a clamar pela morte da menina.
Então ela foi arrastada, em meio ao seu brado de agonia e o rugido de alegria dos outros moradores, ao local onde ficava a forca.
Quando já prendiam a corda em seu pescoço uma voz fina veio lá de trás. O prefeito na primeira vez ignorou afinal poderia ser qualquer grito, contudo a voz foi ficando forte e todos começaram a escutar e enfim pararam.
_O que é isso?
Todos viram então a multidão de meninos que vinham um pouco distante atrás de todos os moradores e eles diziam:
_Soltem-na! Soltem-na!
E o povo se afastou para que eles pudessem passam.
_Soltem-na!
E o prefeito indagou:
_Por que faríamos isso?
_Porque ela falou a verdade, ela nos salvou.
E todos olharam-nos com desconfiança e assombro, até que alguns gritinhos surgiram em meio a multidão:
_É o meu filho!
E assim cada pai foi descobrindo em meio aquela multidão de meninos seus filhos que ele davam por sapos mortos.
Depois que cada pai reconheceu os seus e se regozijaram de felicidade eles voltaram-se para menina ainda amarrada e perguntaram:
_Mas como?
E Gabriela em meio a lágrimas que enchiam seus olhos castanho-mel respondeu:
_Eu adoro sapos e um dia visitando o alojamento percebi um incrivelmente brilhante então peguei-o em meus braços e comecei a acarinhá-lo, no entanto sua pele lisa começou a sair e ficou brincando e eu muito curiosa continuei a fazê-lo sem perceber que assim o matava até que ele ficou todo branco e já não mais respirava e me apavorei e comecei a chorar e jurei nunca mais fazer aquilo e nem me casar, pois de alguma forma sabia que aquele era o meu príncipe. Porém senti um mão em meu ombro, fiquei assustada pensando que alguém teria me pego, apesar que estava pronta para pagar pelo que tinha feito, mas qual foi minha surpresa quando vi diante de mim um menino bem e vivo e ao ver seus olhos percebi que era o mesmo que eu achava ter matado. Fiquei muito feliz e pensei em contar a todos, mas ninguém confiaria em mim, todos achariam que o teria beijado, então resolvi libertar todos os meninos, pois alguns deles há anos esperavam o dito beijo e eles, depois de transformados, me contaram que seu grande amor já havia morrido, e tantas outras mulheres que eles gostavam já haviam passado por ali e nem os notava, então com a ajuda daquele que primeiro libertei comecei a fazer o mesmo com os outros. Quando vi vocês me caçando pensei em contar tudo, mas eu sabia que vocês me impediriam, pois tudo isso já era um costume de vocês então resolvi por não contar.
_ E foi assim que fomos libertados - falou um menino de beleza estonteante e de jeito nobre - e eu mesmo passei gerações transformado e já tinha perdido minhas esperanças quando ela me pegou em seu colo. Quando ela me olhou soube que além dela ser a minha salvação era o grande amor da minha vida.
O prefeito Boa Gente que não gostou de ver todo o costume sendo abandonado, interrogou inconformado:
_E quem é você?
_Eu sou o primeiro a ser transformado eu sou o herdeiro do trono da vilarejo "Sempre, sempre feliz", aquele que voltará a dar prosperidade ao local, pois o castelo se abrirá para mim - e assim se encaminhou para o castelo e todos o seguiram e qual não foi a felicidade do povo a ver o castelo renascer quando aquele garoto pisou em seu terreno.
A partir de então o vilarejo voltou a se chamar "Sempre, sempre feliz", todos os sapos no mesmo dia voltaram a ter forma humana e a prosperidade voltou a reinar; e Gabriela e o verdadeiro príncipe Vinícius VII foram felizes para sempre.

segunda-feira

EPÍLOGO

Numa tarde, Clarisse saiu de casa, a rua estava pouco movimentada, apenas alguns transeuntes, mas isso não era importante porque na frente de sua casa havia um carro estacionado, era um chevet azul brilhante, ou pelo menos deveria ser; o brilho já se acabara a algum tempo e havia alguns arranhões aqui, amassados ali... Os bancos do carro que já tinha sido tão fofos e cheirosos retinham o cheiro doce e repugnante dos diversos perfumes, das diversas mulheres que já andaram nele, misturado a suor e água da chuva que entrava pela janela do carro, pois o vidro não fechava totalmente, ele emperrava bem próximo ao fim, mas era espaço suficiente para permitir a entrada da água. Apesar de tudo isso Clarisse mantinha um ardor ao olhar o automóvel, porque o que ela via não era o carro se desfazendo depois de tanto tempo,a única coisa que ela enxergava era o homem ao volante; o homem magro, com a barba por fazer, os cabelos grisalhos e os olhos cansados, mas ainda assim não existia outro homem no mundo que ela quisesse ver mais que aquele, não havia homem mais importante, ou que ela amasse mais que...

Ali era seu pai, aquele por quem tinha um imenso sentimento, se era mágoa ou amor, ela não sabia bem, apenas que ele continuava ali, em algum canto de seu ser, martelando incessantemente todos os dias como a lhe lembrar da existência que ela jamais achou possível esquecer.

Clarisse que havia parado na porta de casa, voltou a caminhar e depois de uns poucos passos alcançou o carro. uma cortina moveu-se na sala da qual a menina acabara de partir, voou apenas para uma lado como se estivesse sendo puxada, contudo não dava para ver ninguém por trás.

Antes de entrar no carro Clarisse pode perceber que estava sendo observada e olhou para trás com a mão na maçaneta do carro e mesmo sem perceber ninguém, acenou com um largo sorriso a estampar-lhe o rosto. Seu pequeno coração então deu uma fisgada que ela já bem conhecia e tinha a certeza que lá do outro lado da janela a mesma coisa era sentido por quem lhe observava. Nunca gostou de lhe deixar sozinha, mas também sabia que ela jamais lhe privaria daqueles pequenos momentos que acalmavam a alma daquela garota pálida e frágil que acenava e observava carinhosamente o recinto que acabara de deixar.

-Entre logo! - falou o homem no banco do motorista.
como se saísse de um transe, Clarisse voltou-se para o carro e sem mais se deter adentrou o carro e por mais nenhum segundo olhou pra trás o que lhe fez sentir como se lhe apertassem seu pequeno coração, pois era isso que a mãe sempre lhe dizia, que ela tinha um pequeno coração, tão pequeno quanto todo o seu corpo.